domingo, 11 de março de 2012

A DANÇA DOS SONHOS POEMAS & REFLEXÕES PARTE VIII



CRIANÇA MÁGICA

A criança mágica sentiu uma pontada
Uma lembrança, uma recordação bem distante
Nas cores, nas formas, nos tons
Parecia um mistério que deixava uma leve pista
Por trás da brisa, da tempestade, do vento
Por baixo do manto, além do véu
Oculto e disfarçado
Uma força desconhecida
Sua música e sua cadência eram doces
Ela dançou alegre o seu ritmo alucinado
Ela não se importou com frio nem calor
No alto da montanha ficava o seu trono

Vieram estranhos e zombaram dela
Ridicularizam-na e criticam-na, tentaram destruí-la
O que era brincadeira para eles
Com tons cruéis, tentaram aniquilá-la
Sufocar e estrangular sua inocência
Lutando desesperada, apesar das zombarias
Mais uma vez tentaram abatê-la
Apesar dos ataques, não conseguiram derrubá-la
Mesmo com toda a fúria, não conseguiram roubar
O dom de amor divino que não podiam fingir
Desconhecendo sua força ou o que ela buscava
Gritaram e chamaram-na de esquisita

Mas a força misteriosa manteve-se firme
A criança mágica cresceu forte e corajosa
Mergulhando fundo em sua alma
Num êxtase luminoso, descobriu seu papel
Em seu Ser estava a visão infinita
Sua força misteriosa era a esperança humana
Atravessando a máscara do Ser
No silêncio transcendendo a visão
Havia um campo que vivia outra história
Um campo de poder, de infinita glória
Com outras crianças, cujas
Vagas mudariam o mundo

A criança mágica estava pronta para
Plantar sua semente, pegar a enxada
Sem esforço, sem lamento
Sem lágrimas, sem choro
Em perfeito silêncio
Levada por Deus
Para cantar como uma só raça
Virar a maré e fazer tudo mudar

Crianças mágicas, não se preocupem
Não demorem, o futuro é agora.


TU ME OUVES?

Quem sou eu?
Quem és tu?
De onde viemos?
Para onde vamos?
Para que tudo isso?
Sabes as respostas?

A imortalidade é meu jogo
Nasci da Felicidade
Da Felicidade me nutro
Para a Felicidade retornarei
Se não sabes disto agora
Deverias te envergonhar
Tu me ouves?

Este corpo
É um fluxo de energia
Dentro do tempo que corre
As eras passam, as eras vêm e vão
Eu apareço e desapareço
Brincando de esconde-esconde
Num piscar de olhos

Sou a partícula
Sou a onda
Girando na velocidade do raio
Sou a flutuação
Que segue à frente
Sou o Príncipe
Sou o Cavaleiro
Sou a ação
Do que está feito
Sou a galáxia, o vácuo do espaço
Na Via Láctea
Sou o cometa

Sou o pensador e o pensamento
Sou o que busca e o que é buscado
Sou o orvalho, o raio de sol e a tormenta
Sou o fenômeno, o campo e a forma
Sou o deserto, o oceano e o céu
Sou o ser primitivo
Que existe em mim e em ti

Consciência pura e ilimitada
Verdade, existência, sou a Felicidade
Em infinitas expressões, eu venho e vou
Brincando de esconde-esconde
Num piscar de olhos
Mas a imortalidade é meu jogo
As eras passam
Lá no fundo
Permaneço
Sempre o mesmo
Nasci da Felicidade
Da Felicidade me nutro

Dança comigo
Vem agora dançar comigo
Esquecer de ti mesmo
Nunca saberás como
Jogar este jogo
No mar da Eternidade

Deixa os desejos
Brinca agora
Não penses, não hesites
Tentando encontrar a resposta
Apenas cria... Apenas cria...

A imortalidade é meu jogo
Nasci da Felicidade
Da Felicidade me nutro
Para a Felicidade retornarei
Se não sabes disto agora
Deverias te envergonhar
Tu me ouves?

 
LIBERDADE

Toda essa histeria, toda essa comoção
Tempo, espaço, energia são apenas uma noção
Do que conceituamos, daquilo que criamos
De todos os que amamos, de todos aqueles que odiamos

Onde está o começo, onde está o fim?
A flecha do tempo é tão difícil de dobrar
Todas as promessas que fizemos e deixamos de cumprir
Todas as cartas de amor que deixamos de mandar


CHEGAR LÁ

Antes do início, antes da violência
Antes da angústia de quebrar o silêncio
Mil vontades nunca reveladas
Dores de tristezas brutalmente oprimidas

Mas escolhi romper com tudo e me libertar
Cortar as amarras, então, posso ver
Os laços que me prendem a lembranças de dor
Esses julgamentos que bloqueiam a minha mente

Essas horríveis e antigas feridas cicatrizaram
Em seu lugar surgiu uma nova vida
Aquela criança solitária, ainda agarrada ao brinquedo
Está em paz, descobriu a alegria

Onde não há tempo, a imortalidade impera
Onde habita o amor, não há temor
A criança cresceu para fazer sua magia
Abandonou
Sua trágica vida de tristeza

Agora ela está pronta para dividir
Pronta para amar, pronta para cuidar
Abrir o coração, sem nada perder
Junte-se a ela agora, se puder


O CÉU É AQUI

Nunca nos separamos
Isto é apenas uma ilusão
Das lentes mágicas da
Percepção

Há apenas uma Completude
Apenas uma Mente
Somos ondas
No vasto Oceano da Consciência

Venha, dancemos
A dança da criação
Celebremos
A alegria da vida

Os pássaros, as abelhas
As galáxias infinitas
Rios, montanhas
Nuvens e vales
Todos, um ritmo pulsante
Vivos, respirando
Cheios de energia cósmica
Repletos de vida, de alegria
Este é meu Universo

Não tenha medo
De saber quem é
Você é muito mais
Do que imaginou

É o Sol
É a Lua
É a flor do campo em botão
É o pulsar da vida
Que dança
De um grão de poeira
À estrela mais distante

E você e eu
Nunca nos separamos
Isto é apenas uma ilusão
Das lentes mágicas da
Percepção

Celebremos
A alegria da vida
Dancemos
A dança da criação
Curvando-nos sobre nós mesmos
Criamos
Várias vezes
Infinitos ciclos começam e terminam
Alegramo-nos
Na infinitude do tempo

Nunca houve um momento
Em que eu não existisse
Ou você não existisse
Jamais deixaremos de existir

Infinito           Ilimitado
No Oceano da Consciência
Somos ondas
No mar da felicidade

Você e eu nunca nos separamos
Isto é apenas uma ilusão
Das lentes mágicas da
Percepção

O Céu é aqui
Este, o momento de Eternidade
Não se engane
Exija sua Felicidade
Você já se perdeu
Mas agora está em casa
Num Universo não linear
Não é preciso ir a nenhum lugar
Daqui para ali
Há o ilimitado
Oceano da Consciência
Somos ondas
No mar da felicidade

Venha, dancemos
A dança da criação
Celebremos
A alegria da vida

E
Você e eu nunca nos separamos
Isto é apenas uma ilusão
Das lentes mágicas da
Percepção

O Céu é aqui
Este, o momento da Eternidade
Não se engane
Exija sua Felicidade


SALTO QUÂNTICO

Procurei-o por toda a parte
Procurei-o além da noite
Procurei-o em todos os cantos
Minha busca foi, por vezes, infrutífera
Mas onde eu procurasse, descobri
Que estava apenas andando em círculos
No vento e nas tempestades
Podia ouvi-lo em silêncio

Você surgia aonde eu fosse
Em todo sabor e perfume
Pensei que fossem delírios
Em cada vibração, senti sua dança
Em cada visão, descobri seu olhar
Você estava ali, quase ao acaso

Mesmo assim, falhei
Apesar disso, minha vida mudou
Lutei, em vão, com minhas dúvidas
Meus julgamentos eram lembranças de dor
Apenas agora, perdoando
Posso sentir seu calor
Não importa aonde eu vá
Vejo seu esplendor
Em cada peça, sou o ator
Em cada experiência, a eterna constância
Em cada acerto, cada conquista
Você estava ali, como uma semente
Agora sei, porque vi
O que teria feito ou acontecido
Não há por que se esforçar
Porque sua carta está na manga
De cada lance de sorte, da sua fama
O Reino está aqui para vivermos
Em cada chama, em cada lareira
Há uma centelha a gerar novas vidas

Para as canções que nunca cantamos
Todos os desejos dos corações ainda jovens
Além de tudo o que se diz, de tudo o que se vê
No íntimo do Ser
Há um campo que se estende até o infinito
O embrião da divindade é puro e ilimitado
Se pudéssemos SER por um momento
Num instante, veríamos
Um mundo sem sofrimento nem fadiga
De beleza selvagem intocada
De águas puras, céus límpidos
De montes e vales sem mortes

Esse jardim encantado, esse paraíso
Onde vivemos cheios de graça
Dentro de nós, no fundo
Naquele deserto, sob aquela montanha
Sob aquele monte de pesar e tristeza
Está a esplendorosa manhã
Se ainda tiver promessas a cumprir
Apenas mergulhe e salte no infinito.


A IMAGEM NO ESPELHO

Eu queria mudar o mundo, então, um belo dia, acordei e olhei no espelho. A imagem no espelho respondeu:
- Não resta muito tempo. A Terra está arcada de dor. Há crianças com fome. Os países estão divididos, cheios de desconfiança e ódio. Em todo lugar, a atmosfera e as águas estão poluídas. Faça algo por ela!
A imagem no espelho estava zangada e desesperada. Tudo parecia perdido, uma tragédia, um desastre. Achei que a imagem tinha razão. Eu também não me sentia mal pelo mesmo motivo? O planeta está sendo usado e desperdiçado. Imaginar a vida na Terra nas próximas gerações me dá pânico.
Logo encontrei pessoas boas, dispostas a resolver os problemas do planeta. Enquanto ouvia suas soluções, pensei: “Há tanta boa vontade aqui, tanta consideração”. À noite, antes de dormir, a imagem no espelho me olhou, com um ar sério:
- Agora vai dar certo – declarou. – Se todos fizerem a sua parte.
Mas ninguém fez o que deveria. Alguns, sim, mas, e os outros? A dor, a fome, a ira e a poluição seriam resolvidas? Não basta querer – eu sei disso. Quando acordei, na manhã seguinte, a imagem no espelho perecia atordoada.
- Talvez não haja saída... – sussurrou.
Então, ela me lançou um olhar maroto e deu de ombros:
- Mas eu e você vamos sobreviver. Ao menos, estamos fazendo a nossa parte.
Achei isso estranho. Algo estava errado. Comecei a desconfiar de algo que nunca havia suspeitado. E se a imagem no espelho não fosse eu? Ela vive separada. Ela vê problemas que precisam ser resolvidos “lá fora”. Talvez, sim, talvez, não. Ela sobreviverá. Mas não sinto o mesmo – esses problemas não estão “lá fora”, na verdade. Sinto-os dentro de mim. Uma criança que chora na Etiópia, uma gaivota que luta num derramamento de óleo, um gorila selvagem sendo impiedosamente caçado, um jovem soldado que treme de medo ao ouvir aviões sobrevoando: essas coisas não acontecem dentro de mim, quando as ouço ou leio sobre elas?
Depois, quando olhei no espelho, a imagem começou a se desfazer. Afinal, era apenas uma imagem. Mostrava-me uma pessoa solitária, num corpo bem formado.
- Um dia, achei que você fosse eu?
Comecei a pensar. Não sou tão alienado e medroso assim. A dor mexe comigo. Mas existe alegria. E deve haver uma cura. A vida cura a si mesma, e o máximo que posso fazer pela Terra é ser um filho amoroso.
A imagem no espelho ficou aborrecida. Ela não pensava isso do amor. Ver “problemas” era muito mais simples, pois o amor pede honestidade. Ai!
- Ah, meu amigo! – sussurrei-lhe. – Acredita que haja solução sem amor?
A imagem no espelho emudeceu. Sozinha por tanto tempo, sem ninguém em quem confiar ou acreditar nela, acabou se afastando da realidade.
- O amor é mais real do que a dor? – ela perguntou.
- Não posso garantir isso, mas deve ser. Vamos descobrir... – respondi.
Toquei o espelho e sorri.
- Não ficaremos mais sós. Quer dançar comigo? Estou ouvindo uma música. Venha!
A imagem no espelho sorriu, envergonhada. Descobriu que podíamos ser amigos. Podíamos ser mais pacíficos, amorosos e honestos um com o outro.
Isso mudaria o mundo? Acho que sim, porque a Mãe Terra quer que sejamos felizes e a amemos, atendendo as suas necessidades. Ela precisa de pessoas que tenham coragem, que emerge por fazermos parte dela, como a criança sente coragem para caminhar, porque sua mãe estende os braços para segurá-la. Quando a imagem no espelho sentir amor por mim e por ela mesma, não sentirá mais medo. Quando sentimos medo e entramos em pânico, deixamos de amar a vida e a Terra. Desconectamos de tudo. Como alguém pode ajudar a Terra, se estiver desconectado? Talvez a Terra esteja nos dizendo o que ela quer e, ao não ouvi-la, voltamos a sentir medo e pânico.
Sei de uma coisa: sentir-me filho da Terra faz com que eu não me sinta só. Não preciso me preocupar com a sobrevivência, se eu perceber que a vida está toda dentro de mim. As crianças e a dor delas; as crianças e a alegria delas. O mar reluzindo ao sol; o mar coberto de óleo. Animais temendo ser caçados; animais felizes por estarem vivos.
Quero continuar a sentir o “mundo dentro de mim”. A imagem no espelho, às vezes, duvida. Então, trato-a bem. Toda manhã, toco o espelho e sussurro:
- Olá, amigo, estou ouvindo uma música. Quer dançar comigo? Venha!


OLHE OUTRA VEZ, MINHA FOQUINHA

Uma das fotos da natureza mais tocantes é de um filhote de foca deitado no gelo. Tenho certeza de que já viu esta foto – os olhos negros e confiantes deste pequeno animal fitam profundamente a câmera a vão direto ao coração. Quando eu os vi pela primeira vez, eles me perguntaram:
- Você vai me machucar?
Eu sabia que a resposta seria sim, pois milhares de filhotes de foca são mortos todos os anos.
Muitos se sentiram tocados pelo desamparo desta foquinha. Fizeram doações para salvá-la, e a opinião pública começou a mudar. Quando olhei para a foto de novo, aqueles imensos olhos me disseram outra coisa. Agora, perguntavam:
- Você me conhece?
Desta vez, não senti a mesma mágoa diante da violência que o homem inflige aos animais. Mas percebi que ainda havia uma longa distância a ser percorrida. O que eu realmente sabia sobre a vida na Terra? Que responsabilidade eu tinha por criaturas fora do meu pequeno habitat? De que forma deveria conduzir a minha vida para que cada célula de matéria viva também se beneficiasse?
Todos que se preocupam com essas coisas, eu creio, deixaram de temer e passaram a encarar a vida de outro modo. A beleza e as maravilhas da existência tornaram-se pessoais; a chance de transformar o planeta num jardim onde todos possam crescer começou a surgir. Encarei a foquinha e, pela primeira vez, seus olhos sorriram:
- Obrigada! – eles disseram. – Você me deu esperança.
Isso é suficiente? Esperança é uma palavra tão bonita, mas, às vezes, parece frágil demais. Ainda se fere e se destrói a vida sem necessidade. A imagem de uma foquinha deitada no gelo ou de uma órfã de guerra ainda assusta por seu desamparo. Percebi que nada salvaria a vida no planeta, senão a confiança na própria vida, em seu poder de cura, na capacidade de superar os nossos erros, e de nos aceitar, depois de aprendermos a corrigi-los.
Pensando nisso, observei de novo a foto. O olhar da foca agora parecia mais profundo, e percebi algo que não vira antes: uma força inquebrantável.
- Você não me feriu – eles disseram. – Não sou apenas uma foquinha. Sou a vida, e a vida não pode ser eliminada. É a força que me trouxe do vácuo sideral; cuidou de mim e preservou minha vida contra todos os perigos. Sinto-me segura, porque eu sou essa força. Assim como você. Fique comigo, e sintamos a força da existência juntos, como uma única criatura sobre a Terra.
Foquinha, perdoe-nos. Continue vigiando o nosso caminho. Esses homens, que a sacrificam a marretadas, também são pais, filhos e irmãos que têm famílias, que eles amam e cuidam. Um dia, eles também a amarão. Tenha certeza e confie.


O SONHO CONTINUA...        

A DANÇA DOS SONHOS POEMAS & REFLEXÕES PARTE VII




EM BUSCA DA MINHA ESTRELA

Quando eu era pequeno, costumava deitar no jardim à noite. Comecei a estudar as estrelas, e queria ter uma, como amiga invisível.
Primeiro, escolhi a Estrela do Norte, por ser a mais fácil de ver, e saber que a Ursa Maior iria pegá-la. Mas queria que minha estrela se movesse e não ficasse tão parada quanto as demais. Além disso, ao marinheiros se perderão, se a Estrela do Norte não estiver lá para guiá-los.
Em seguida, escolhi duas estrelas especiais no meio da Constelação do Cisne. Todas as outras pereciam brancas – mas uma era azul e a outra, dourada. Lembravam jóias idênticas, mas, antes de escolher, eu me detive. Se elas viviam juntas, não seria justo escolher uma delas.
O Cinturão de Órion me chamou a atenção por um instante, mas eu não sou um caçador. Seria melhor deixar a Estrela do Cão [a Sirius] na Constelação do Cão Maior que, vista de lado, parece estar farejando a trilha celeste e abanando o rabo no meio do céu.
Por último, voltei-me para as minhas favoritas, as Sete Irmãs – as Plêiades. Para mim, eram donzelas vestindo-se para o baile, envoltas numa névoa azul. Mas quem teria coragem de separá-las?
Meu jogo me ensinou muito sobre o céu à noite, mas eu era menino e estava crescendo. Minha vontade de ter minha própria estrela se apagou, e não consigo lembrar se, afinal, escolhi uma ou não. Contaram-me que a palavra “estrela” queria dizer outra coisa. Quase acreditei neles. Então, uma noite, eu estava preocupado demais, sem conseguir dormir. Meu coração estava pesado, cheio de problemas. Levantei-me e olhei pela janela. O céu estava coberto de nuvens espessas. Não se via nenhuma estrela!
Estremeci só de pensar num mundo sem estrelas. Não haveria nenhuma para guiar o navegante no mar, nem jóias para nos encantar com sua beleza, nem o caçador apontando uma flecha para o horizonte, nem nenhuma donzela deixando um rastro de perfume a caminho de um baile no céu. Mas, em torno do planeta, a atmosfera está tão poluída e as luzes das cidades ofuscam tanto, que mal conseguimos enxergá-las. Gerações de crianças crescerão olhando um céu opaco e perguntarão:
- Havia estrelas ali?
Precisamos devolvê-las ao céu e vamos fazer isso agora – antes que seja tarde. Vou procurar minha estrela até encontrá-la. Ela está escondida na gaveta da inocência, embrulhada num véu de encanto. Terei um mapa para me dizer que buraco ela deverá preencher e este será bem pequeno. Mas há quase cinco bilhões de pessoas na Terra, e todas precisam do céu. Encontre sua estrela e devolva-a ao céu. Você ainda tem a sua, não?


TODA CRIANÇA É UMA CANÇÃO

Quando as crianças escutam música, elas não apenas a ouvem. Elas se dissolvem na melodia e seguem o ritmo. Algo dentro delas abre asas – logo, criança e música se fundem. Sinto o mesmo quando eu ouço música, e passei meus melhores momentos de criação com crianças. Quando estou com elas, a música é tão fácil quanto respirar.
Toda canção é uma criança que nutro, e a quem dou meu amor. Mas mesmo que nunca tenha composto uma, sua vida é uma canção. Como poderia ser diferente? Onda a onda, a natureza o acolhe – o ritmo, depois de cada nascer e pôr do sol, faz parte de nós; a chuva toca nossa alma, e vemo-nos com as nuvens, brincando de pique com o sol. Viver é ser musical, a começar pelo sangue que dança em nossas veias. Tudo o que vive possui um ritmo. Sentir cada ritmo, devagar e atentamente, faz com que ouçamos a música.
Consegue sentir a música?
As crianças, sim, mas depois crescem, a vida se torna pesada e um fardo, e a música, inaudível. Às vezes, o coração pesa tanto que nos afastamos dele, e esquecemos que suas batidas são a mensagem mais sábia da vida, um bilhete em branco, que diz: “Viva, seja, mexa-se, desfrute: você está vivo”. Sem o ritmo do coração, nós não existiríamos.
Quando me sinto cansado ou sobrecarregado, as crianças me animam. Busco nelas uma nova vida, uma nova música. Dois olhos castanhos me olham tão atentos, com tanta inocência, que murmuro para mim mesmo:
- Esta criança é uma canção.
É uma experiência tão impactante, que imediatamente percebo:
- Também sou uma canção.
E desperto para mim mesmo outra vez.


FILHO DA INOCÊNCIA

Filho da inocência, sinto falta de tuas tardes ensolaradas
Quando brincávamos o dia inteiro.
Desde que foste embora,
As ruas se tornaram vazias, escuras e sem sentido.

Filho da inocência, volta para mim agora.
Com um simples sorriso, mostra-lhes como
Este mundo pode responder outra vez ao teu olhar
E o coração bater ao ritmo de tua dança.

Filho da inocência, tua elegância e beleza
Chamam-me além do dever.
Vem voar comigo por toda a parte
Sobre as montanhas no país do amor.

Filho da inocência, mensageiro da alegria.
Deslumbraste meu coração sem tocá-lo.
Minha alma arde em chamas.
Mudar o mundo é o que mais desejo.


TU ESTARÁS LÁ?

Banha-me no rio Jordão
E então te direi
Que és meu amigo
Carrega-me como um irmão
Ama-me como minha mãe
Tu ficarás comigo?

Quando eu me sentir triste, diga-me, tu me abraçarás?
Quando eu errar, tu me ajudarás?
Quando eu me perder, tu me buscarás?
Mas me disseram para ter fé
E caminhar quando eu não puder mais
E lutar até o fim
Mas eu sou apenas humano.

Todos tentam me controlar
O mundo quer me ditar regras
Sinto-me tão confuso
Tu me mostrarás?
Tu me darás tua mão?
E te importarás comigo?

Segura-me, mostra-me
Baixa a cabeça
De modo gentil e corajoso
Leva-me contigo
Eu sou apenas humano.

Segura-me, mostra-me
Baixa a cabeça
De modo gentil e corajoso
Leva-me contigo
Eu sou apenas humano.

Leva-me, leva-me
Leva-me com coragem
De modo gentil e suave
Leva-me contigo
Eu sou apenas humano.

Proteja-me
Ama-me e alimenta-me
Beija-me e liberta-me
E me sentirei abençoado.

Sozinho
Quando sinto frio e estou sozinho
E preciso apenas de ti
Ainda te importarás?
Tu estarás lá?

Salva-me
Cura-me e banha-me
Gentil, me dizes
Estarei contigo
Mas ficarás comigo?

Abraça-me
Aperta-me e protege-me
Toca-me e cura-me
Sei que te importas
Mas estarás lá?

Sozinho
Quando sinto frio e estou sozinho
(Às vezes, me sinto sozinho, muito sozinho)
E preciso apenas de ti.
Ainda te importarás?
Tu ficarás comigo?

Leva-me
Leva-me com coragem
De modo gentil e suave
Leva-me até lá.

Proteja-me
Ama-me e alimenta-me
Beija-me e liberta-me
E me sentirei abençoado.

Chama-me
Salva-me e olha-me.

Abençoa-me e diga-me
Eu estarei lá
Sei que te importas.

Salva-me
Cura-me e banha-me
Suavemente me dizes
Eu estarei lá
Mas tu estarás lá?

Alimenta-me
Alimenta-me e conforta-me
Quando eu estiver sozinho e faminto
Ainda partilharás?
Ainda te importarás?

Aconchega-me
Conforta-me, não me deixes
Quando sinto dor e sofro.

Ferido e despido
Ainda te importarás?

Beija-me
Olha-me e beija-me
E quando meu coração doer
Ainda te importarás?
Ainda estarás lá?

Ergue-me
Ergue-me com cuidado
Estou triste e sozinho
Sei que estás lá
Mas ainda te importas?

segunda-feira, 5 de março de 2012

A DANÇA DOS SONHOS POEMAS & REFLEXÕES PARTE VI




ÊXTASE

Nasci para nunca morrer
Viver em alegria e nunca chorar
Dizer a verdade e nunca mentir
Repartir meu amor sem lamentar
Estender meus braços sem medo
Esta é minha dança, este é meu ápice
Não vê que isto não é um segredo?
Por que não vivemos sempre em êxtase?

Êxtase... Êxtase
Por que não
Vivemos sempre em Êxtase?
Sem culpa, sem remorso
Estou aqui para esquecer
As marcas de pecados imaginados
Em cada parente, amigo e companheiro.

Viemos aqui celebrar
Livrarmo-nos do medo
De toda noção, de toda semente
De toda separação, casta ou credo.

Esta alienação, fragmentação, abominação
De separação, exploração, isolamento
Esta crueldade, histeria, total loucura
Esta raiva, ansiedade, tanta tristeza
Ecologia corrompida, terrível destruição
Biologia doente, natureza obstruída
Espécies em extinção, poluição ambiental
Rombos na camada de ozônio, de difícil solução
É não desconhecer a luz que ilumina a minha alma
É o mesmo fogo que brilha em cada pai, filho e mãe interiores
 
Viemos aqui celebrar
Livrarmo-nos do medo
De toda noção, de toda semente
De toda separação, casta ou credo.

Sinta-se livre, deixe-nos voar
No infinito, além do horizonte
Pois nascemos para nunca morrer
Viver em alegria e nunca chorar
Dizer a verdade e nunca mentir
Repartir meu amor sem lamentar
Estender meus braços sem medo.

Esta é minha dança, este é meu ápice
Não vê que isto não é um segredo?
Por que não vivemos sempre em êxtase?

Êxtase... Êxtase
Por que não
Vivemos sempre em Êxtase?


BERLIM 1989

Eles odiavam o Muro, mas o que poderiam fazer? O muro era resistente demais para ser derrubado.
Eles temiam o Muro, mas isso não fazia sentido? Muitos tentaram escalá-lo e foram mortos.
Ninguém confiava no Muro, mas quem confiaria? Seus inimigos não queriam derrubar os tijolos, não importa quanto se arrastassem as negociações de paz.
O Muro riu, soturno:
- Aprendam a lição – gabou-se. – Se quiserem construções duráveis, não usem pedras. O ódio, o medo e a desconfiança são muito mais fortes.
Eles sabiam que o Muro tinha razão e quase desistiram. Só uma coisa os impediu. Lembraram de quem vivia do outro lado. Avós, primas, irmãs, esposas. Rostos amados que eles ansiavam rever.
- O que está acontecendo? – o Muro perguntou, tremendo.
Sem perceber o que faziam, olhavam através do Muro, tentando encontrar seus entes queridos. Silencioso, um a um, o amor agiu de modo invisível.
- Parem! – gritou o Muro. – Estou desmoronando! Porém, era tarde demais. Um milhão de corações se reencontraram. O Muro caiu antes de ser derrubado.


MÃE TERRA

Num dia de inverno, eu estava caminhando pela praia. Ao baixar os olhos, vi uma onda trazer e deixar uma pena de gaivota sobre a areia. Ela estava manchada de óleo. Peguei-a e toquei a escura camada com a ponta dos dedos. Não pude deixar de me perguntar se a gaivota teria sobrevivido. Ainda estaria viva? Certamente que não.
Fiquei triste ao perceber o pouco caso com que cuidamos da nossa casa. Nosso planeta não é apenas uma pedra girando no espaço, mas um ser vivo que nos nutre. Que zela por nós e merece nosso cuidado em troca. Tratam a Mãe Terra como uma casa alugada. Usam e depois a abandonam.  
Porém, não há outro lugar para ir. Espalhamos lixo, guerras e racismo por toda a parte. Temos de começar a limpá-la e, para isso, precisamos primeiro limpar os corações e as mentes, pois envenenam nosso planeta. Quanto antes mudarmos de atitude, mais fácil será amar a Mãe Terra e sentir o amor que nos retribui de graça.


SÁBIA MENINA

Conheço uma menina sábia que não pode andar. Está confinada a uma cadeira de rodas, onde passará o resto da vida, já que os médicos perderam as esperanças de que ela volte a andar.
Quando a conheci, abriu um sorriso que me queimou de tanta felicidade. Como era feliz! Ela não se escondia sob um manto de autopiedade, não esperava ser aceita, nem sentia vergonha. Sentia-se totalmente inocente por não poder andar, como um cãozinho não que sabe se é vira-lata ou se tem pedigree.
Ela não se censurava. Esta era sua sabedoria.
Já vi o mesmo olhar de sabedoria em outras crianças “pobres”, como a sociedade costuma chamá-las, por não terem comida, dinheiro, boas casas, nem saúde. Quando atingem certa idade, muitas percebem as péssimas condições em que vivem. O modo como os adultos as vêem rouba-lhes esta primeira inocência, tão rara e preciosa. Acreditam que devem se sentir constrangidas, por isso ser o “certo”.
Mas esta sábia menina, de apenas quatro anos, superou a piedade e a vergonha, como um pardal que voa despreocupado. Ela segurou meu coração em suas mãos, fazendo-o sentir-se leve como algodão, e eu não consegui nem pensar.
- Que coisa impressionante!
Eu vi a luz do amor! Em sua inocência, as crianças sabem que carregam essa luz. Se deixarmos, elas nos ensinarão a nos enxergar da mesma forma.
O olhar da menina contém o mesmo conhecimento que a natureza põe no coração de cada ser. É o segredo inaudível da vida, que não pode ser traduzido em palavras. Apenas sabemos. Sabemos o que é a paz e o que devemos fazer para não ferir ninguém. Sabemos que até num suspiro há um gesto de gratidão em relação ao Criador. Ela sorri por estar viva, esperando, paciente, que o tempo de ignorância e tristeza passe, como uma miragem.
Cada vez mais vejo este conhecimento nos olhos das crianças, o que me faz acreditar que a sua inocência esteja aumentando. Elas desarmarão os adultos e isto bastará para desarmar o mundo. Elas não vêem por que prejudicar o meio ambiente, então poderemos limpá-lo sem discussão. A menina sábia revelou-me o futuro, ao olhar para mim, cheia de paz e contentamento. Sinto-me feliz em confiar mais nela do que nos especialistas. Como a luz do amor dissipa a culpa e a vergonha, sua profecia se cumprirá.


EU VOCÊ NÓS

Pedi-lhe que fizesse uma coisa. Você se negou. Conversamos e concordamos que eu poderia ajudá-la. Disse-lhe que estava errada. Você insistiu estar certa. Chegamos a um meio termo, e certo e errado desapareceram.
Chorei. Você também chorou. Abraçamo-nos e, entre nós, nasceu uma flor de paz.
Como amo este mistério chamado “Nós”! De onde ele vem? Do nada? Refleti sobre ele e percebi: devemos ser os filhos diletos do amor, porque até me aproximar de você, o “Nós” não existe. Chega nas asas da ternura, fala através de nossa compreensão silenciosa. Quando rio sozinho, o amor sorri. Quando eu a perdôo, ele se rejubila.
Então, o “Nós” não é mais uma escolha, não, se você e eu desejarmos crescer juntos. O “Nós” nos une, aumenta nossa força; carrega nosso fardo, quando quase o derrubamos. Na verdade, há muito já teríamos desistido, mas o “Nós” não nos deixa desistir. Ele é sábio demais.
- Olhem em seus corações – ele diz. – O que vocês vêem? Não você e eu, mas apenas “Nós”.


ANJO DE LUZ

É difícil ver anjos, mesmo olhando para imagens deles por muito tempo. Algumas pessoas conseguem vê-los, mesmo sem elas, e contam histórias muito interessantes. Anjos da guarda, por exemplo, são todos femininos, o que não me surpreendeu quando descobri. Um anjo de nascimento, recrutado das hostes mais jovens, cuida de cada bebê que nasce, enquanto outro anjo, mais velho, porém muito simpático, ajuda os moribundos a deixarem o mundo sem dor ou tristeza.
Podemos rezar para os anjos e eles nos ouvirão, mas o melhor modo de chamá-los, me disseram, é rindo. Os anjos atendem à alegria, pois esta é sua essência. Na verdade, quando as mentes estão conturbadas pelo ódio ou a raiva, nenhum anjo poderá atendê-las.
Nem todos têm asas – dizem aqueles que conseguem vê-los -, mas os anjos que as possuem podem abrir as asas douradas e abraçar o mundo. Se pudessem olhar direto para o sol, veriam um belo anjo sentado nele; um anjo mais sereno sorri, olhando-nos da lua.
Os anjos passam a vida – que dura toda a eternidade – em volta do trono do Criador, entoando hinos em Seu louvor. Aqueles que têm ouvidos mais aguçados conseguem ouvi-los. As harmonias do coro angelical são muito complexas, dizem, mas seu ritmo é simples.
- Têm som de marcha – disse um que ouviu.
Por alguma razão, este é o fato mais interessante que descobri até agora.
Algum tempo depois, fiquei cansado de ouvir falar de anjos que eu não via. Quando uma observadora de anjos me ouviu reclamar, ficou chocada:
- Não consegue vê-los? – perguntou. – Mas há um anjo dentro de você. Todos têm um. Posso vê-lo agora, e pensei que também pudesse ver.
- Não - respondi, triste, e perguntei como ele era. – Ele se parece comigo?
- Bem, sim e não... – a observadora de anjos respondeu fazendo tom de mistério. – Tudo depende de como você se vê. Seu anjo é uma faísca do seu coração. É mais ínfimo do que um átomo, mas não é apenas isso. Ao se aproximar, a faísca aumenta. Quanto mais perto, mais ela cresce, até, finalmente, ver o anjo em sua verdadeira forma, numa explosão de luz e, nesse instante, poderá ver a si mesmo também.
Assim, estou o tempo todo à procura do meu anjo. Sento-me, silencioso, e medito. Pouco depois, vejo algo.
- É você, Anjo, segurando uma vela?
Vi um brilho que logo se apagou. Mas foi o bastante para fazer meu coração disparar. Da próxima vez, meu anjo estará segurando uma lanterna, depois uma tocha e, finalmente, acenderá uma fogueira.
Foi o que a observadora de anjos me prometeu e, agora que vi um pouco de sua luz, já sei o suficiente para poder acreditar.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A DANÇA DOS SONHOS POEMAS & REFLEXÕES PARTE V




AMOR

É difícil descrever o amor. É tão fácil de sentir, porém, é complexo falar dele. É como segurar um sabonete na banheira – não podemos apertá-lo.
Muitos passam a vida procurando o amor do lado de fora. Pensam que devem agarrá-lo para poder tê-lo. Mas o amor escorrega dos dedos, como o sabonete na banheira.
Não é errado querer o amor, mas é devemos segurá-lo suavemente, com carinho. Deixe-o voar quando quiser. Quando o amor é livre, ele nos dá vida, júbilo e alegria. É como a essência e a energia que motivam minha música, minha dança, e tudo o que faço. Enquanto o amor estiver em meu coração, ele estará por toda a parte.


DEUS 

É estranho que Deus não Se importe em Se expressar através de todas as religiões do mundo, enquanto todos se agarram à noção de que a sua religião seja o único e verdadeiro caminho. O que falamos sobre Deus acaba por ofender alguém, mesmo que digamos que o amor que expressam por Deus seja correto para eles.
Para mim, a forma que Deus assume não é o mais importante. O que importa é a Sua essência. Minhas canções e minha dança são contornos para que Ele as preencha. Eu crio a forma, Ele me dá a doçura. Olhei o céu à noite e vi as estrelas brilhando tão perto, como se tivessem sido bordadas pela minha avó. “Que riqueza, que suntuosidade!”, pensei. Nesse momento, vi Deus em Sua criação. Também poderia tê-Lo visto na beleza do arco-íris, na graça de uma corça no campo, na verdade do amor paterno. Mas, para mim, o contato íntimo com Deus não possui forma. Cerro os olhos, volto-me para dentro, e mergulho num profundo silêncio. O infinito da criação divina me envolve. Somos um.


COMO EU FAÇO MÚSICA

Sempre me perguntam como faço música. Digo-lhes que apenas eu entro na música. É como mergulhar num rio e deixar-se levar pela corrente. A cada momento, o rio entoa uma canção. Então, calo-me e escuto.
A canção nunca se repete. Caminhar pela floresta nos traz uma canção cristalina e murmurante: as folhas sussurram ao vento, os pássaros chilreiam e os esquilos ruminam, os ramos estalam sobe os pés, e meu coração para e ouve tudo isso. Quando nos deixamos levar pela corrente, a música está dentro e fora de nós, e ainda são a mesma. Enquanto puder ouvir o momento, a música sempre estará comigo.


RYAN WHITE

Ryan White, símbolo da justiça
Ou filho da inocência, mensageiro do amor,
Onde estás agora, para onde foste?

Ryan White, sinto saudades dos dias de sol
Quando brincávamos despreocupados

Sinto saudades, Ryan White
Saudades de teu sorriso inocente e contagiante
Saudades de tua aura, saudades da tua luz   

Ryan White, símbolo da contradição
Filho da ironia, ou filho da ficção?

Penso em tua vida despedaçada
Em tua luta, em teu esforço

Enquanto as moças dançam ao luar
Em festas regadas a champanhe em longos cruzeiros
Vejo tua forma perdida, tua visão assombrada
Sinto tuas feridas, tuas contusões

Ryan White, símbolo de agonia e dor
Do medo ignorante e ensandecido
Numa sociedade histérica
De ansiedade galopante
E falsa piedade

Sinto saudades, Ryan White
Ensinaste-nos a ficar e lutar
Sobe a chuva, era uma nuvem de alegria
Em cada criança, um brilho de esperança
No fundo de tua imensa tristeza
Estava o sonho de um novo dia.


SOMBRA OCULTA

Mesmo ao percorrer longas distâncias   
Deixei entreaberta a porta da minha alma
Agonizando com o medo mortal
Não ouvi a sua canção
Ao longo das curvas da memória
Carreguei a minha cruz, trespassado de dor

Foi uma louca viagem
De uma angústia gerada pela tristeza
Eu vagava por toda a parte
Encolhia-me diante dos ataques
Procurando o néctar subtraído
No meu coração um reino há muito perdido
Em todos os rostos assombrados
Eu procurava o meu oásis

De certo modo, foi uma loucura  
Uma histeria cruel, uma escura neblina
Que tantas vezes tentei atravessar
Não sabia fugir da sombra que me perseguia
Muitas vezes, em meio à turba barulhenta
No fremir da multidão irrequieta
Procurava os seus rastros
Não queria perdê-lo de vista

Apenas quando rompi os grilhões
Depois que silenciaram os terríveis gritos
Nas profundezas dos mais pesados suspiros
A amargura engendrada por mil mentiras
Súbito, encarei seus olhos de fogo
De repente, encontrei aquilo que buscava
A sombra oculta era minha própria alma.



AS CRIANÇAS DO MUNDO

Precisamos curar as feridas do mundo. Os caos, o desespero, a destruição desmedida de hoje resulta da separação entre os semelhantes e o ambiente em que vivem. Muitas vezes, essa separação começou numa infância emocionalmente infeliz. Crianças que tiveram sua infância roubada. A mente da criança se alimenta do mistério, do encanto e do contentamento. Quero que minha arte ajude a todos a redescobrir a criança que ainda vive neles.


DOIS PÁSSAROS

É difícil dizer o que sinto por você. Nunca ninguém o viu, se quer em fotos. Então, como compreenderão seu mistério? Vamos lhes dar uma pista.
Dois pássaros estão pousados numa árvore. Um bica cerejas, e o outro apenas observa. Dois pássaros voam. Um tem um canto cristalino, e o outro se mantém mudo. Dois pássaros voam em círculos sob o sol. Um refulge suas asas prateadas, e o outro plana com asas invisíveis.
É fácil descobrir qual deles sou eu, mas jamais poderão ver você. A menos que...
A menos que conheçam um amor que não interfere; que assiste a tudo do alto, que respira livre o ar translúcido. Doce pássaro – minha alma -, teu silêncio é precioso. Quando o mundo ouvirá seu canto dentro do meu?
Ah, como esperam por esse dia!


A ÚLTIMA LÁGRIMA 

Suas palavras cortaram o meu coração, e verti lágrimas de dor.
- Saia daqui! – gritei. – Estas são as últimas lágrimas que derramei por você.
Então, você se foi.
Esperei por horas, mas você não voltou. Naquela noite, sozinho, chorei de frustração.
Esperei várias semanas, mais você nada disse. Lembrando se sua voz, chorei de solidão.
Esperei vários meses, mas você se quer me deu sinal de vida. No fundo do coração, chorei de desespero.
Estranho como todas essas lágrimas não conseguiram diluir a minha dor! Então, um pensamento de amor atravessou a minha amargura. Lembrei de você num dia de sol, com um sorriso tão doce quanto o vinho da primavera. Uma lágrima de gratidão escorreu do meu olho e, como um milagre, você voltou. Tocou meu rosto com seus dedos macios, e se aproximou para me beijar.
- Por que voltou? – sussurrei.
- Para secar sua última lágrima – você respondeu. – Esta que guardou para mim.